A existência de um plano nacional nesta área é, em si, positiva, mas o SIM considera que o processo de elaboração e o momento da sua publicação levantam reservas significativas quanto à sua exequibilidade e impacto real.
O SIM identifica, desde logo, um conjunto de perplexidades que importa tornar públicas:
- Publicação tardia do plano
Estamos no final do primeiro trimestre de 2026 e o documento apenas agora é conhecido, apesar de dizer respeito ao biénio 2025-2026.
Um plano que se pretende estratégico e rigoroso deveria ter sido aprovado e divulgado com a antecedência necessária para permitir a preparação, planeamento e adaptação das equipas e estruturas envolvidas. - Ausência de participação das entidades que trabalham no terreno
Desconhece-se que o processo de elaboração tenha envolvido, de forma estruturada, as entidades e profissionais que, diariamente, prestam cuidados paliativos e têm, reiteradamente, sinalizado dificuldades e proposto soluções.
É particularmente difícil de compreender que não tenham sido formalmente integrados contributos de instituições como a Ordem dos Médicos (no âmbito da sua competência em Cuidados Paliativos), a Associação Portuguesa de Cuidados Paliativos, as IPSS e as Misericórdias, entre outras que têm manifestado disponibilidade para colaborar. - Comissão Nacional de Cuidados Paliativos por nomear
Permanece por nomear, há mais de um ano, a Comissão Nacional de Cuidados Paliativos, estrutura prevista na Lei de Bases dos Cuidados Paliativos e com papel central na coordenação e desenvolvimento deste setor.
A ausência desta instância de coordenação fragiliza, desde logo, a capacidade de implementação e monitorização de qualquer plano estratégico. - Falta de referência à valorização e estabilidade dos médicos de Cuidados Paliativos
Apesar de o SIM ter contribuído para o reconhecimento da Dedicação Plena para estes profissionais, não se identifica no plano qualquer compromisso claro com a criação de condições de estabilidade, progressão, formação contínua e valorização da carreira médica nesta área.
A omissão desta dimensão compromete a capacidade de atrair e reter médicos qualificados, essenciais para a consolidação dos Cuidados Paliativos no SNS. - Indefinição do enquadramento nas Unidades Locais de Saúde (ULS)
O plano não clarifica a organização, integração e papel dos Cuidados Paliativos nas Unidades Locais de Saúde, num contexto em que coexistem indefinições e falta de reconhecimento do trabalho desenvolvido por muitos profissionais.
Uma verdadeira estratégia nacional deveria explicitar modelos organizacionais, linhas de reporte e articulação com a Rede Nacional de Cuidados Paliativos. - Definição genérica de eixos estratégicos e objetivos
Os eixos estratégicos e objetivos são apresentados de forma excessivamente genérica, sem identificação de responsáveis, metas quantificadas, calendarização, recursos afetos e critérios de avaliação.
Sem estes elementos, torna-se difícil assegurar o acompanhamento, a transparência e a responsabilização pela execução das medidas propostas.
O SIM sublinha que a existência de um Plano Estratégico na área dos Cuidados Paliativos é um passo necessário, mas insuficiente. A publicação tardia e a fragilidade do processo participativo levantam dúvidas quanto à sua implementação efetiva e ao contributo real para a melhoria do acesso e da qualidade dos cuidados prestados aos doentes e às suas famílias.
Face ao exposto, o Sindicato Independente dos Médicos (SIM):
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Exige à Direção Executiva do Serviço Nacional de Saúde a urgente nomeação da Comissão Nacional de Cuidados Paliativos, condição essencial para uma coordenação efetiva da política nacional neste domínio.
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Apela ao Ministério da Saúde para que envolva de forma ativa os profissionais e as associações científicas e do setor social que trabalham no terreno, integrando os seus contributos na revisão e operacionalização do plano, e para que valorize, de modo concreto, a carreira médica na área dos Cuidados Paliativos.
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Insta a Ordem dos Médicos a avançar com a criação da Especialidade de Cuidados Paliativos, condição estruturante para garantir um percurso formativo e profissional adequado, em linha com as necessidades presentes e futuras do Serviço Nacional de Saúde.
O SIM, enquanto maior sindicato médico de Portugal, reafirma a sua total disponibilidade para colaborar na identificação de soluções que permitam reforçar a Rede Nacional de Cuidados Paliativos e assegurar um acesso efetivo, equitativo e de qualidade a estes cuidados, ainda hoje marcados por carências significativas em várias regiões do país.
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